ANÁLISE: O que significam as eleições de França para o euro?

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Esta primavera, França vai às urnas para eleger um novo presidente. Estas eleições têm levantado algumas dúvidas sobre a presença do país na Zona Euro.

A candidata da Frente Nacional, Marine Le Pen, já disse que vai retirar o país do bloco monetário. França foi uma das nações fundadoras da União Europeia.

O spread entre as yields da dívida de França e da Alemanha avançou para máximos desde 2012. As obrigações dos países mais fracos da Europa também foram pressionadas, uma vez que ressurgiram dúvidas sobre o projeto do euro.

Mas, para já, a própria moeda parece relativamente calma perante a ameaça.

O que propõe Le Pen?

Le Pen fez da saída da Zona Euro um pilar da sua plataforma política, propondo passar os primeiros seis meses como Presidente a negociar o regresso ao franco. Isso pode significar uma redenominação da dívida do governo, o que na opinião da S&P Global Ratings levaria efetivamente a um default.

Qual a probabilidade de França deixar o euro?

A maior parte dos especialistas, e das probabilidades de aposta, sugerem que Le Pen vai cair na segunda ronda das eleições, quando os eleitores se unirem em torno do seu adversário.

Mesmo que Le Pen vença, vai ter de realizar um referendo sobre esta questão. Para realizar esse referendo, Le Pen necessita do apoio do primeiro-ministro. A menos que a Frente Nacional também vença as eleições legislativas, o primeiro-ministro deve ser de outro partido.

Se o referendo for realizado, as sondagens indicam consistentemente que a maioria dos eleitores de França quer continuar no euro.

“Cerca de dois terços sente que são cidadãos europeus e querem manter o euro”, disse Marion Amiot, economista da Oxford Economics para a Zona Euro.

Os mercados estão preparados para a saída de França?

No curto prazo, os derivados que protegem os investidores contra a forte queda do valor do euro estão a tornar-se mais caros.

Mas os investidores estão a exigir menos proteção do que fizeram para a libra antes do referendo do Reino Unido sobre a perman ncia na União Europeia.

Menos investidores esperam uma queda da moeda, de acordo com dados da Comissão de Comércio de Futuros de Commodities dos EUA. A CFTC registou mais 46.764 contratos curtos do que longos no euro na semana terminada a 17 de fevereiro, bastante menos que a média semanal de 82.579 do ano passado.

Além disso, o risco de desmembramento da Zona Euro não significa necessariamente um euro mais fraco. Durante a crise financeira de 2011-12, quando o futuro do euro estava em causa, a moeda estava cerca de 7% mais forte contra um cabaz de outras divisas do que está hoje.

O que acontece se França sair?

Se Le Pen ganhar, alguns investidores preveem uma queda imediata do euro.

Fabio Bassi, estratega chefe de taxas de juro da Europa do J.P. Morgan, acredita que a moeda vai cair 10% contra o dólar nas semanas seguintes ao evento.

Mas outros dizem que o euro deve sobreviver sem França, dado o forte apoio em muitas partes do bloco monetário, incluindo na Alemanha — a maior economia do continente.

O euro pode mesmo tornar-se mais forte no longo prazo após a saída de França, a segunda maior economia do bloco.

Com a economia da Alemanha a representar a maior parte da Zona Euro, a moeda única tornar-se-ia um “quasi marco alemão”, diz o Citigroup. “Isso não nos parece uma moeda fraca.”

França é importante para o euro?

Le Pen não gosta, mas o euro é em certa medida uma representação mais justa da economia francesa do que muitos outros países do bloco.

A taxa de câmbio de equilíbrio de França — que mede o fair value de uma moeda com base nas condições económicas como o desemprego e a balança comercial — era de perto de $1,25 no final de 2015, de acordo com Angel Talavera, da Oxford Economics. A taxa de câmbio de equilíbrio da Zona Euro como um todo era de $1,23.

Em comparação, a Alemanha precisaria de uma taxa de câmbio mais elevada, dada a robustez da sua economia, a $1,37. Grécia precisaria de uma taxa de câmbio bastante inferior, de $1,097.

Se França sair, outros vão seguir-se?

Durante a crise de dívida soberana, os investidores temiam que a saída da Grécia da Zona Euro arrastasse a próxima economia mais fraca do bloco e assim sucessivamente.

As yields da dívida dos países mais expostos à saída da Grécia dispararam.

“A dinâmica do mercado pode criar condições que tornam impossível manter a coesão da Zona Euro, muito antes de Le Pen assinar os decretos-lei para a criação do franco”, disse Neville Hill, corresponsável de research económico global do Credit Suisse.

As yields das obrigações de alguns países do sul da Europa acompanharam a subida recente das yields de França. Na verdade, as yields de Itália subiram mais este ano do que as de França.

-Por Mike Bird (Mike.Bird@wsj.com)

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