Angola: Com a economia em crise, país prepara-se para receber novo líder

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TALATONA, Angola (DJ Bolsa)– Este novo subúrbio, construído na periferia da capital angolana, surge como um monumento fantasma que representa os desafios enfrentados por um dos maiores produtores de petróleo de África, num momento em que o país se prepara para a primeira transição de liderança em quase quatro décadas.

Dezenas de condomínios fechados continuam maioritariamente vazios, acumulando pó. Foram construídos durante a primeira metade da década para uma classe média que nunca emergiu e uma elite estrangeira que em grande parte fez as malas e abandonou o país quando o boom do petróleo se desvaneceu, em 2014.

Em centros comerciais vistosos, as lojas que ainda não fecharam têm dificuldades em abastecer as prateleiras, uma vez que a queda a pique da moeda local e a escassez de dólares dificultam as importações.

Agora, quando atravessa a pior crise económica desde o final da guerra civil, em 2002, Angola aproxima-se da primeira alteração de liderança em 37 anos, com o anúncio em dezembro de que José Eduardo dos Santos não vai recandidatar-se à Presidência nas eleições agendadas para agosto.

Ainda é discutível se a mudança trará novas soluções para os problemas económicos do país africano. O partido no poder, o MPLA, escolheu João Lourenço, o atual ministro da Defesa, como sucessor de Eduardo dos Santos e as autoridades aumentaram a pressão sobre jornalistas críticos do regime e ativistas contra o governo.

Os interesses que a família do Presidente tem na economia também deverão continuar inalterados.

Um tribunal angolano decretou na semana passada que o chefe de Estado agiu dentro da legalidade quando nomeou a filha Isabel dos Santos presidente da petrolífera estatal Sonangol, a peça central da economia angolana, em que 96% das exportações surgem da venda de crude.

A filha do Presidente já lidera um império empresarial que vai das telecomunicações à banca, enquanto o irmão José Filomeno dos Santos lidera o fundo soberano de Angola.

“Existe um grande descontentamento sobre [José Eduardo] dos Santos e, acima de tudo, sobre a sua família”, diz Filomeno Vieira Lopes, um economista e membro do Bloco Democrático, um pequeno partido da oposição.

Um olhar mais atento ao skyline reluzente de Luanda, em que se tornam visíveis os esqueletos de arranha-céus inacabados, sem eletricidade ou saneamento básico, revela a dimensão da queda económica do país. Nas ruas abaixo, cidadãos comuns têm de debater-se com uma inflação de 41% e escassez crónica de produtos como açúcar, óleo alimentar ou medicamentos.

O Fundo Monetário Internacional espera que a economia registe um crescimento nulo em 2016, o pior desempenho em tempo de paz desde que há registo — e um desastre para um país cuja população de 26 milhões está a crescer 3,2% anualmente.

Entretanto, a dívida pública disparou para 78% do produto interno bruto, de acordo com estimativas do FMI, face aos 41% que se verificavam quando os preços do petróleo afundaram, em 2014.

Pouco se sabe sobre onde ou a quem o governo angolano pede emprestado — muito menos a que taxas de juro — e por isso os analistas alertam para a dificuldade em prever a capacidade do Estado para pagar a dívida. Em abril, o governo entrou em negociações sobre um pedido de assistência financeira ao FMI e abandonou-as três meses mais tarde. Desde então, o banco central utilizou 18% das reservas cambiais para manter o fluxo de parte das importações.

Se a despesa continuar a este ritmo, “provavelmente em cerca de um ano ficará sem reservas”, disse Stuart Culverhouse, diretor de research de rendimento fixo da Exotix Partners, uma firma de investimento especializada em mercados de fronteira.

É uma realidade distante da economia pujante que permitiu a Angola adquirir participações de peso nos setores da banca e energia em Portugal ao longo da última década.

Neste momento, os despedimentos nas empresas petrolíferas e de construção travaram a progressão de uma classe média que gastava o rendimento disponível em carros importados e férias no estrangeiro. A moeda angolana, o kwanza, caiu para uma taxa oficial de 165 por dólar face aos cerca de 97 em 2014. No mercado negro, um dólar vale cerca de 485 kwanzas.

Ainda assim, o anúncio de que Eduardo dos Santos não irá recandidatar-se causou surpresa. Na capital, faixas ainda celebram a sua recente reeleição como líder do MPLA, com 99,6% dos votos.

“Camarada Presidente, as pessoas pedem que continue a liderar os destinos do país”, referem os cartazes.

Contudo, para muitos angolanos, o consulado de José Eduardo dos Santos mudou para pior nos últimos anos.

Maria Antónia Jorge, presidente de uma cooperativa de peixeiras da ilha de Luanda, uma estreita península em frente à baixa da capital, enviou dois filhos para a universidade com as vendas de sardinhas e cavala.

“Por vezes, pagava três ou quatro meses [de propinas]de uma vez só”, diz, orgulhosamente, com o peixe a secar numa rede em cima de uma barraca de praia improvisada.

Hoje, a mulher de 45 anos receia que os filhos não cheguem a licenciar-se, porque teme que a subida do preço do sal e a descida da procura de peixe signifique que não terá dinheiro para pagar as propinas dos filhos. “Existe esse receio”, refere.

A inversão dos destinos de Angola também é visível em Talatona, onde muitas lojas têm dificuldades em manter as prateleiras e os expositores preenchidos de produtos, apesar de o banco central ter aliviado as restrições sobre a moeda estrangeira.

José Edson, vendedor de automóveis no concessionário da Fiat-Chrysler de Talatona, tem de recusar frequentemente potenciais clientes porque a empresa não consegue obter dólares suficientes para importar novos veículos. O concessionário costumava importar cerca de 2.000 carros a cada seis semanas. A remessa mais recente, de 70 carros, ocorreu há três meses.

“A procura existe, mas não a oferta”, refere.

Visto que o concessionário é forçado a vender os carros em kwanzas à taxa oficial, em vez de à taxa de câmbio muito mais fraca do mercado negro, os Fiat Panda e Jeep Cherokee tornaram-se subitamente acessíveis a quem tenha dólares e conheça o mercado paralelo.

A peixeira da ilha de Luanda refere que, apesar dos receios e dificuldades, aprendeu uma lição valiosa do colapso económico de Angola.

“A única coisa boa que saiu desta situação é que estamos a ter cuidado com as nossas despesas”, refere.

– Por Gabriele Steinhauser (gabriele.steinhauser@wsj.com)

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