Portugal em velocidade de cruzeiro após passar mau bocado

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LISBOA (DJ Bolsa)– Há apenas quatro anos, Portugal estava sob a alçada dos credores internacionais. Os bancos estavam a vacilar, o desemprego era de cerca de 18% e dezenas de milhares de portugueses deixavam o país.

Agora, o país é uma das estrelas da Europa, com as startups tecnológicas a multiplicarem-se, estrangeiros a instalarem-se e o investimento a chegar. Em meados de setembro, a Standard & Poor’s elevou mesmo Portugal do grau especulativo para a classe de investimento — a cereja no topo do bolo para um país que esteve a um passo do default em 2011 e teve que aceitar um resgate no valor de EUR78 mil milhões ($92 mil milhões).

“Lisboa está na moda”, diz Martin Henk, um empresário da Estónia que abriu um escritório na cidade, atraído por um grupo de talentos multilíngues e altamente qualificados e custos de vida acessíveis. “Para qualquer dos lados para que se vire, as pessoas estão a falar sobre isso”. Henk contratou 35 pessoas desde o início das operações, em março, e planeia quase triplicar a força de trabalho até ao final de 2018.

A economia de Portugal cresceu 3% no segundo trimestre, em comparação com o mesmo período de 2016, o ritmo mais rápido desde 2000. A confiança dos consumidores está perto de máximos históricos e o desemprego é de 8,8%, abaixo da média da UE.

A recuperação em Portugal espelha a da Irlanda, que também foi forçada a um resgate. Dublin manteve os impostos às empresas baixos — 12,5% em comparação com uma média da UE de 21,5% — o que ajudou a atrair investimento estrangeiro. Criou um “banco mau” que ajudou os bancos a descarregar créditos em dificuldades. O PIB da Irlanda cresceu 5,2% no ano passado e o Fundo Monetário Internacional espera um crescimento de 3% até ao final de 2019.

Portugal e a Irlanda contrastam com a Grécia e Itália, onde o crescimento é cerca de metade do de Portugal. Os fracos bancos gregos, o setor público ineficiente e a fraca base industrial têm travado uma recuperação mais forte, enquanto os elevados custos base de Itália, altos impostos e grande número de empresas pequenas e ineficientes mantêm os níveis de produtividade e emprego baixos.

Na verdade, é muito cedo para dizer se a recuperação surpreendente está para durar. O Fundo Monetário Internacional tem as duas dúvidas, estimando que o crescimento de Portugal volte a 1,2% no médio prazo.

“Não há dúvida de que a economia está muito bem agora”, disse Teodora Cardoso, presidente do Conselho das Finanças Públicas. “A questão principal é se isso é sustentável a longo prazo”.

As sementes do boom atual foram semeadas em parte durante o resgate, cujos termos exigiram que Portugal implementasse reformas estruturais, como novas leis do trabalho, tornando mais barato para as empresas despedir trabalhadores em recessões e um sistema de coleta de impostos mais eficiente que ajudou reprimir a evasão fiscal.

Os salários caíram, tornando Portugal mais atrativo para os investidores estrangeiros — talvez não para os trabalhadores – enquanto o governo mantinha a despesa pública sob controle. A política monetária extraordinariamente acomodatícia do Banco Central Europeu também foi vital.

Ainda mais vital foi a forte recuperação económica de Espanha, o maior mercado de exportação de Portugal, bem como o boom do turismo que está a ajudar grande parte do sul da Europa. Mais de 11 milhões visitaram Portugal nos primeiros sete meses deste ano.

O boom turístico trouxe milhares de milhões de novos investimentos em construção e transportes. Os 10 aeroportos de Portugal tiveram 44 milhões de passageiros no ano passado, quase mais 50% em relação a 2011. Em agosto, a TAP, a companhia aérea de bandeira do país, obteve um recorde de passageiros. E alguns estão a chegar para ficar: as descidas de impostos atraem estrangeiros, particularmente franceses e brasileiros, a estabelecerem-se em Portugal de forma permanente.

A loja dos Pastéis de Belém viu as vendas subir 30% desde os mínimos atingidos na crise, em 2013. Para responder à procura, foram feitas 31 novas contratações para um total de 180 pessoas e foi aumentado o número de lugares no café.

Os construtores investiram na renovação de apartamentos para revender ou oferecer aos turistas no Airbnb. A Airbnb viu um aumento de 60% nos hóspedes em Portugal este verão em comparação com o verão de 2016. O emprego no setor imobiliário aumentou 44% na primavera em relação ao mesmo período do ano passado.

Portugal também se tornou um centro surpreendente para o mundo tecnológico. A Web Summit, a maior conferência tecnológica da Europa, trocou Dublin por Lisboa em 2016. A conferência somou o equivalente a EUR200 milhões e mais de 50.000 participantes a Lisboa no ano passado.

“Agora, de repente, Lisboa e Portugal estão na lista final de todos para visitar ou criar negócios”, disse Pedro Rocha Vieira, co-fundador e CEO da Beta-i, uma empresa que ajuda as startups a criar e angariar fundos. A Beta-i ajudou mais de 300 startups portuguesas a estabelecerem-se.

Isto está a ajudar a diminuir a fuga de cérebros, em que muitos dos melhores e mais brilhantes líderes de Portugal saíram para o estrangeiro no auge da crise. Em 2013, quase 54.000 portugueses deixaram o país por mais de um ano, contra 5.600 em 2006. No ano passado, o número era de 38.000.

Gonçalo Abreu, cientista de dados de 26 anos, considerou deixar Portugal quando terminou os estudos, no início deste ano. Mas quando recebeu uma oferta da Jungle A.I., uma nova startup que usa dados para prever mudanças nas operações das empresas, aceitou imediatamente.

“Durante a crise, muitos dos meus colegas emigraram”, disse. “Mas o otimismo está a regressar. A recuperação é tangível”.

A recuperação foi tão rápida e forte que está a começar a dar sinais de tensão.

Mário Ferreira, um engenheiro civil estabelecido em Lisboa que começou a comprar apartamentos na cidade em 2014 para renovação e revenda, disse que costumava encontrar imóveis por cerca de EUR1.000 por metro quadrado. Agora, não consegue encontrar espaços de qualidade por menos de EUR2.500 por metro quadrado. Como resultado, as margens de lucro diminuíram mais de metade em comparação com alguns anos antes.

O mercado de trabalho português também está mais rígido, o que está a começar a aumentar os salários. No ano passado, a Volkswagen AG optou por construir um novo modelo T-Roc na fábrica portuguesa. Mas agora, à medida que o mercado de trabalho se fortalece, os trabalhadores da fábrica fizeram uma greve depois de a empresa ter pedido que trabalhassem aos sábados para responder à procura pelo novo modelo — apesar da oferta da empresa ter um oferecido aumento salarial de 16%.

Miguel Pina Martins, fundador da fabricante de brinquedos Science4You SA, viu os rivais perseguir os seus funcionários mais qualificados, como os programadores — algo inédito até recentemente.

“Estamos a receber menos currículos e, quando os chamamos para uma entrevista, há menos que realmente vêm, porque até lá já conseguiram um emprego”, disse Martins. A empresa, que exporta a maioria dos seus produtos, começou a aumentar os salários que oferece como resultado disto.

– Por Patricia Kowsmann (patricia.kowsmann@wsj.com)

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