(DJ Bolsa)– O Fundo Monetário Internacional arrisca-se a denegrir a sua própria credibilidade ao ressuscitar o programa de resgate da Grécia. Mas no longo prazo, o risco político pode mesmo restaurar a credibilidade do fundo.
A decisão da diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, na quinta-feira, de apoiar “por princípio” um resgate abriu caminho a que os ministros das Finanças da Zona Euro desbloqueassem fundos de emergência para a Grécia, antes de Atenas enfrentar uma crise de escassez de liquidez em julho.
O acordo é um compromisso de cedências: a Alemanha pode dizer ao eleitorado que o FMI apoia o controverso resgate, apesar de o fundo não contribuir com nenhum financiamento nesta altura. O FMI pode manter-se firme e insistir no compromisso dos credores de Atenas com a redução da dívida grega antes de desembolsar qualquer ajuda financeira. Já a Grécia poderá evitar mais um caso de caos financeiro, ao mesmo tempo que o governo recebe algum reconhecimento pelas reformas económicas e orçamentais.
Ainda assim, alguns analistas dizem que o acordo retira alguma vantagem que o FMI tinha sobre os credores, numa altura em que Atenas se preparava para enfrentar elevados montantes de obrigações que atingiam a maturidade em julho.
De acordo com o desenho original destes resgates, estabelecido na década de 1980, uma aprovação “por princípio” deve ter um prazo de 30 dias, para fazer avançar uma redução da dívida quando as conversações entre os credores estagnam. Depois de o conselho do FMI ter desenvolvido estas linhas orientadoras em 1984, apenas no resgate da Argentina em 1987 o FMI recusou estabelecer um prazo. Esta decisão contribuiu para o fracasso do resgate, de acordo com o historiador oficial do fundo.
A credibilidade do FMI é crucial para assegurar os mercados e os Estados-membros que tenham de recorrer ao fundo. Economistas dizem que a perda de credibilidade do FMI aquando do primeiro resgate da Grécia em 2010 contribuiu para um aumento de acordos de financiamento laterais, sobretudo entre países de mercados emergentes.
O fundo disse que as orientações da década de 1980 já não se aplicam. “O propósito do princípio não era para ganhar qualquer vantagem”, disse um responsável de topo da instituição sediada em Washington. O objetivo era “dar espaço de manobra aos credores para acordarem formas de reduzir a dívida e permitir à Grécia evitar uma crise de liquidez durante o verão.”
Na verdade, o FMI acredita que o acordo sobre a dívida não está para breve, tal como preveem muitos economistas que acreditam que as eleições da Alemanha, perto do final do ano, são uma barreira crucial. “São questões que levam tempo”, disse o responsável de topo do FMI. “Devem levar alguns meses a resolver-se.”
Neste contexto, o FMI disse que o prazo pode não ser benéfico para chegar a uma resolução.
Na década de 1980, o fundo usou a aprovação em princípio para forçar os credores a alcançar rapidamente um acordo.
Agora, o FMI pode mesmo querer que os credores da Grécia levem maus algum tempo, disse Jacob Kirkegaard, do Peterson Institute.
Kirkegaard prevê que a Alemanha tente adiar o mais possível o alívio da dívida, na tentativa de levar o governo de esquerda do primeiro-ministro Alexis Tsipras a levar a cabo grande parte das reformas económicas. Tsipras e o seu partido, o Syriza, têm vindo a perder popularidade depois de o governo ter instituído ainda mais austeridade.
Berlim pode esperar que Tsipras perca o capital político e seja eleito um novo governo. O partido Nova Democracia tem tido vantagem sobre o Syriza nas sondagens mais recentes. “Há pouco a ganhar ao dar um alívio da dívida a Tsipras”, disse Kirkegaard. Berlim “prefere dá-lo em favor de outra plataforma [política]”. Caso isso se verifique, o FMI pode finalmente ter conseguido colocar a Grécia no rumo de ser uma economia mais saudável, quase uma década depois do primeiro resgate.
Contudo, Kirkegaard disse que há alguma perda de credibilidade ao permitir que a Alemanha volte a adiar a redução da dívida. “Mas quando comparado à perda de credibilidade que seria virar as costas a um Estado-membro, aos olhos de muitos mercados emergentes, isso seria bem pior.”
Manter-se ao lado de um membro em dificuldades e mostrar que o FMI é capaz de navegar no turbulento mar de políticas da Europa pode assegurar os mercados emergentes de que fundo é capaz de perdurar em resgates complicados e trabalhar com outros mecanismos de resgate.
Ainda assim, a decisão do FMI é um risco. Caso a Alemanha não cumpra com a redução da dívida grega e o programa de resgate da Grécia fracasse pela terceira vez, a credibilidade do FMI pode sofrer um golpe duríssimo.
-Por Ian Talley