WSJ: Europa teme que Portugal tenha uma recaída com crise de dívida

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LISBOA (DJ Bolsa)– Com os produtos de cerâmica da sua empresa a registarem fortes vendas, Joaquim Beato, presidente da Molde Faianças SA, diz que idealmente encaminharia parte dos lucros para a investigação & desenvolvimento. Mas, em vez disso, a empresa não gastará um único euro.

Beato teme que as vendas da empresa portuguesa diminuam na Europa, numa altura em que as economias do continente abrandam e reduzem as importações. O empresário também tem receios em relação aos obstáculos internos — a incerteza sobre as políticas do Partido Socialista e a dificuldade de financiamento perante um sistema bancário penalizado pelo fardo do crédito malparado.

“Entre investir e não investir, é simplesmente mais seguro não investir”, disse Beato, que emprega cerca de 100 pessoas. “A minha postura neste momento é ‘vamos com calma'”.

O agravamento do clima de investimento em Portugal e o fraco crescimento económico estão a gerar receios na Europa, e não só, de que o país que pediu um resgate internacional há cinco anos possa voltar a tropeçar numa dívida que é agora de cerca de 130% do produto interno bruto.

O Fundo Monetário Internacional alertou em setembro que, embora a dívida consiga ser gerida por agora, existem riscos elevados quanto à capacidade de Portugal manter os pagamentos, deixando o país “particularmente vulnerável a alterações do sentimento do mercado”.

Uma recaída de Portugal seria um duro golpe para estado moral da União Europeia, que está já a braços com um crescimento anémico, políticas populistas e a decisão do Reino Unido de deixar o bloco. Se isso acontecesse, deixaria a nu o quão longe a Europa está de ultrapassar a ressaca da crise de dívida que pôs em causa a sobrevivência do euro no início da década.

Na Alemanha, o país mais influente da Zona Euro, os responsáveis temem que o facto de Portugal ter aliviado as políticas orçamentais ao longo do último ano possa aumentar o risco de uma nova crise e de um novo programa de resgate.

“Portugal está a cometer um grande erro se deixar de aderir àquilo com que se comprometeu”, disse o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, no final de junho. “Terão de pedir um novo programa. E recebê-lo-ão.”

As duras palavras de Schaeuble refletem a visão de que os países devedores do sul da Europa, como Portugal e a Grécia, têm de suportar o rigor orçamental e reformas económicas se quiserem deixar a crise para trás.

Os comentários geraram ressentimento em Portugal, onde o primeiro-ministro António Costa tem negado os receios relacionados com um possível incumprimento da dívida.

Ainda assim, as discussões sobre uma possível nova crise de dívida e dos seus efeitos na Europa persistem.

“Um pedido de resgate para Portugal, embora não deva ter os efeitos de contágio para outros países que vimos em 2011, traria de volta questões sobre o futuro da Zona Euro e tornariam o clima político na Europa ainda mais hostil”, disse David Schnautz, estratega do alemão Commerzbank.

Indicadores recentes mostram que a economia de Portugal está a ter mais dificuldades do que se esperava. Na sexta-feira, o banco central apresentou previsões que apontam para uma queda do investimento de 1,8% este ano. A economia está a crescer a um ritmo homólogo de 0,9%, segundo dados do segundo trimestre, metade do que o governo estima para a totalidade do ano, à medida que o consumo e as exportações registam um crescimento apenas modesto.

Embora outras economias europeias estejam também a passar por dificuldades, as agências de rating destacaram o fraco crescimento e o elevado endividamento público e privado de Portugal como uma combinação tóxica.

Os remédios aplicados ao abrigo do programa de resgate de Portugal de EUR78 mil milhões ($87,6 mil milhões) parecem agora insuficientes. Desde 2011, o governo subiu impostos, cortou despesa e reformou o mercado laboral, num esforço para reduzir o deficit e encorajar as contratações. Contrariamente à Grécia, Portugal fechou o programa de resgate em 2014.

Mas a vontade de mudança diminuiu no ano passado, à medida que se aproximavam as eleições legislativas. As promessas de reduzir a administração pública e torná-la mais eficiente foram abandonadas. O FMI e a Comissão Europeia, os credores de Portugal, disseram que o país não conseguiu combater o elevado endividamento do setor privado, que limita o investimento e o crescimento.

O governo socialista de Costa, que assumiu funções em novembro com o apoio de três partidos de esquerda, rapidamente reverteu os cortes de salários da função pública. Também subiu o salário mínimo e começou a eliminar o imposto extraordinário sobre o rendimento. A retirada da austeridade pretendia impulsionar o consumo e a economia.

Isso não aconteceu. O consumo subiu 1,7% no segundo trimestre em termos homólogos, menos que os 2,6% no primeiro trimestre e os 2,4% previstos para 2016, revelam os dados do instituto nacional de estatísticas. As famílias estão a abrandar o consumo de bens duradouros e não duradouros.

O FMI disse que a inversão da política “gerou incerteza, que parece ser um fator significativo por detrás do abrandamento do investimento”.

Paulo Vaz, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, diz que as novas políticas estão também a afetar a produtividade. A decisão de retomar quatro feriados que o anterior governo tinha abolido, por exemplo, está a custar às empresas têxteis EUR150 milhões por ano, diz.

O ministro das Finanças, Mário Centeno, disse que o governo planeia uma série de medidas pró-empresas, incluindo descidas de impostos para firmas que investirem. O ministro disse que a taxa de desemprego, nos 11,1% em julho face a 12,3% no período homólogo, mostra que as políticas do governo estão a funcionar e conduzirão a um crescimento mais sólido.

Economistas e investidores não estão convencidos e apontam para uma subida dos custos de financiamento de Portugal. As yields das obrigações portuguesas subiram ao longo do último ano, enquanto os pares da Zona Euro, à exceção da Grécia, viram os seus custos de financiamento descer.

– Por Patricia Kowsmann (patricia.kowsmann@wsj.com)

– Marcus Walker contribuiu para este artigo.

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