(DJ Bolsa)– Passaram dois anos desde que o Banco Central Europeu lançou o gigante programa de compra de obrigações — conhecido por programa de alívio quantitativo — e os seus esforços parecem finalmente estar a dar frutos. A inflação nos 19 países da Zona Euro subiu de repente para 2%, ligeiramente acima da meta do banco central, depois de se situar em torno de zero durante anos. Isto levou a vários apelos para uma inversão da política de Frankfurt, em particular vindos da Alemanha, que tem aversão à inflação. Durante a conferência de imprensa do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, desta quinta-feira, os investidores vão estar atentos aos sinais relacionados com o caminho a seguir no futuro.
O que se espera que o BCE faça esta semana?
Manter a política. Foi recentemente que o BCE prolongou o programa de QE em meio bilião de euros e os economistas consideram que ainda é muito cedo para mudar de rumo. O recente aumento da inflação deve-se principalmente à subida dos preços da energia e este efeito irá desaparecer provavelmente mais para o final do ano. A Zona Euro enfrenta um calendário político muito complicado nos próximos meses e o BCE indicou que quer manter a estabilidade no que diz respeito ao controlo da economia. “Provavelmente é necessário mais alguns trimestres de dados macroeconómicos e saber o resultado das eleições em França para que o BCE comece a mudar o seu tom”, disse Vincent Juvyns, estratega de mercados globais da J.P. Morgan Asset Management.
Quão forte é a economia da Zona Euro?
Está a melhorar. O desemprego está a cair, a inflação a avançar e a taxa de crescimento do bloco está atualmente a superar a de outras economias avançadas, de acordo com a empresa de dados financeiros IHS Markit. As novas previsões económicas do BCE, que serão publicadas esta quinta-feira, deverão mostrar revisões em alta da inflação para este ano e para o próximo. Ainda assim, os dados médios encobrem grandes diferenças na área da moeda única: enquanto as economias do norte da Europa estão a acelerar, algumas a sul enfrentam um fraco crescimento da produtividade e um aumento do crédito malparado.
Quando será o momento para reduzir o QE?
No banco central, os responsáveis políticos divergem sobre se o nível atual de estímulos é demasiado forte para uma economia em recuperação. Alguns altos responsáveis sugeriram que em breve pode ser a altura de começar a reduzir o programa de QE. No entanto, os investidores já evidenciam receios antes das eleições em França e na Holanda — onde pode haver fortes vitórias dos partidos eurocéticos, como a Frente Nacional de França. O spread entre as yields das bunds da Alemanha, consideradas como seguras, e das obrigações soberanas de França tem estado a aumentar ao longo dos últimos meses. Perante este cenário, qualquer discussão pública sobre a redução parece prematura.
O que mais poderá fazer o BCE?
Embora os responsáveis políticos se devam afastar de quaisquer mudanças de política importantes, podem decidir enviar um sinal aos investidores de que os dias de elevado estímulo monetário vão acabar. Para isto, podem ajustar a linguagem utilizada na sua declaração política indicando que diminuíram os riscos para o crescimento económico ou abandonar o compromisso de aumentar o ritmo do QE se necessário. O ritmo de compra de obrigações do BCE será reduzido de EUR80 mil milhões ($84,52 mil milhões) por mês para EUR60 mil milhões, a partir de abril.
E em relação às taxas de juros?
O BCE deixou cuidadosamente em aberto a possibilidade de um novo corte das taxas, desde que os investidores foram apanhados de surpresa há um ano quando Draghi sugeriu que as taxas tinham atingido o fundo. Agora, com a inflação acima da meta, essa promessa parece desatualizada. Yves Mersch, membro do conselho executivo do BCE, sugeriu no mês passado que isto deve ser abandonado em nome da credibilidade do banco. Ainda assim, outros responsáveis do BCE alertaram para os riscos que esta pequena mudança pode representar. “O BCE quer abordar qualquer alteração da política com muita cautela”, disse Marco Valli, economista do UniCredit em Milão.
– Por Tom Fairless (tom.fairless@wsj.com)