(Este artigo foi originalmente publicado na quarta-feira.)
(DJ Bolsa)– O dólar tem os seus céticos.
A moeda dos EUA disparou 2,5% desde o início de outubro até ao final de terça-feira, estando a caminho do segundo ganho mensal mais forte do ano e refletindo as expectativas de que a Reserva Federal dos EUA vai subir as taxas de juro em dezembro. A subida de outubro colocou o índice WSJ Dollar a uma curta distância de passar a território positivo em 2016 pela primeira vez desde fevereiro.
Ainda assim, vários sinais sugerem que a nota verde não subirá muito mais por agora. O crescimento económico dos EUA está a abrandar, dizem muitos investidores, apontando para as leituras fracas recentes da confiança dos consumidores e da inflação. O abrandamento deve limitar a capacidade da Fed para subir as taxas de juro no próximo ano, conforme é necessário para conseguir uma maior apreciação do dólar, dizem analistas.
Alguns investidores estão a alertar que o mercado bull do dólar, que dura há quase seis anos, está nas etapas finais A moeda subiu 36% contra as principais rivais desde 2011, mas os ganhos mais recentes foram motivados quase exclusivamente pelas descidas da libra, do euro e do iene. Contrariamente, o dólar apreciou contra todas as principais divisas exceto o franco, no ano passado, e foi o campeão indiscutível dos mercados cambiais em 2014, de acordo com dados do Deutsche Bank.
“Depois de um movimento tão forte, eventualmente temos de pensar quando a correção vai acontecer”, diz Thomas Flury, chefe de estratégia cambial da UBS Wealth Management, que supervisiona cerca de $2 biliões em todo o mundo. “Esta subida parece estar a chegar ao fim.”
Um recuo do dólar teria implicações alargadas. Poderia aliviar a pressão sobre os resultados das empresas dos EUA e, assim, impulsionar ganhos da quota de mercado. Poderia também impulsionar os preços do petróleo e outras commodities denominadas em dólares, potencialmente suportando as economias emergentes, mais dependentes das commodities.
Ao mesmo tempo, a depreciação do dólar pode significar problemas para os bancos centrais da Europa e da Ásia, que têm batalhado para reanimar as economias ao manter as respetivas moedas baratas.
Um potencial sinal de alerta é o deficit da conta corrente dos EUA, que aumentou nos últimos dois anos à medida que a força do dólar tornava os produtos dos EUA mais caros quando vistos do estrangeiro. O deficit comercial dos EUA era de 2,6% do produto interno bruto no segundo trimestre, mais de 18% acima do nível em 2014. Embora o número não seja elevado quanto comparado com os níveis antes da crise financeira, fortes subidas coincidiram muitas vezes com picos em mercados bull anteriores.
“Os dados dos EUA têm sido ok, mas não espetaculares”, disse Daragh Maher, chefe de estratégia cambial dos EUA no HSBC Holdings PLC. “Quando temos dados a lateralizar, faz sentido que o dólar também se mantenha à margem.”
O dólar desce 1,8% este ano, depois de subir 8,6% em 2015 e 12,5% em 2014.
Muitos céticos veem paralelos com fevereiro, quando a subida do dólar foi apanhada por um recuo global dos mercados financeiros que levou os bancos centrais, liderados pela Fed, a assumir uma postura mais branda em relação aos estímulos. A quantia de fundos a apostar na valorização do dólar na semana passada subiu para o pico desde fevereiro, mostram dados da Commodity Futures Trading Commission. Isso pode abrir a porta a uma forte inversão se o sentimento se alterar.
Flury disse que está a aconselhar os clientes a usarem a subida como oportunidade para tomar mais-valias. Flury acredita que o euro subirá para $1,20 contra o dólar em 12 meses, face a cerca de $1,09 na quarta-feira.
“Estamos céticos sobre tudo isto”, disse Flury, relativamente aos ganhos recentes do dólar.
Outros investidores continuam confiantes. Os bancos centrais da Europa, Japão e China estão a manter as taxas de juro perto de zero, tornando os EUA um destino atrativo para os investidores que procuram rendibilidades mais interessantes.
No passado, os mercados bull tipicamente viraram quando a moeda subiu cerca de 20% acima da paridade de poder de compra, um indicador do valor relativo de uma moeda, de acordo com o Deutsche Bank. Apesar dos fortes ganhos, o dólar subiu apenas 10% acima da PPC.
“Quando os EUA sobem na tabela de taxas de juro em vez de descerem, isso tem sido coincidente com uma apreciação do dólar”, disse Alan Ruskin, chefe de estratégia do G-10 do Deutsche Bank.
A política dos EUA pode também ser um fator importante na determinação da direção do dólar, disse David Woo, chefe global de research de taxas de juro e câmbio do Bank of America Merrill Lynch. A despesa orçamental dos EUA pode impulsionar a economia e o dólar, refere Woo.
Contudo, a maior parte dos analistas da política orçamental dizem que novos estímulos de vulto apenas devem acontecer se um único partido controlar o Congresso e a Casa Branca. Por agora, muitos economistas preveem um governo dividido nas eleições de 8 de novembro, com Hillary Clinton a conquistar a presidência e o partido Republicado a manter a Câmara dos Representantes.
O dólar deve cair cerca de 10% contra o euro e o iene num cenário de divisão, disse Woo. Juntas, as duas moedas representam mais de 50% do índice WSJ Dollar.
“Não me lembro de uma altura da história recente em que a política fosse tão importante para o dólar”, disse.
– Por Ira Iosebashvili (ira.iosebashvili@wsj.com)