(DJ Bolsa)– A progressão das obrigações da Zona Euro tem um protagonista surpreendente: Portugal.
Os investidores têm acorrido à dívida da Zona Euro ultimamente, atraídos por um misto de dados económicos e redução do risco político. E Portugal, um dos países-membros de menor dimensão da UE, que atravessou um difícil período de resgate há seis anos, está a beneficiar do fluxo de capital em direção à periferia da Zona Euro.
As yields das obrigações portuguesas a 10 anos fecharam nos 3,092% na terça-feira, em mínimo de oito meses. Esta é uma forte reversão face aos 4,3% alcançados em fevereiro, quando os custos da dívida subiram devido a receios de que os franceses elegessem a candidata anti-União Europeia Marine Le Pen como presidente. Em vez disso, a vitória de 23 de abril de Emmanuel Macron na primeira volta das eleições iniciou uma progressão de alívio por toda a Europa.
O dinheiro que afluiu para os fundos de ações portugueses disparou desde então, revelam números da EPFR Global, muito acima da restante Zona Euro. As yields portuguesas a 10 anos também lideraram a queda, ao descerem 0,7 pontos percentuais, face aos 0,1 pontos percentuais das yields italianas. Apenas as yields gregas caíram mais, mas por razões diferentes: as expectativas de que os credores internacionais desbloqueiem novos fundos de resgate.
Os investidores em obrigações ficaram ainda mais animados por dados que revelaram que a recuperação económica de três anos de Portugal — onde os custos de financiamento a 10 anos superaram os 16% no auge da crise da dívida soberana em 2012 — está a acelerar.
A economia portuguesa cresceu 2,8% em termos homólogos no primeiro trimestre, o ritmo mais rápido em quase uma década. O crescimento anual deverá continuar, mas deverá abrandar para uma média entre 1% a 1,5% no médio prazo, de acordo com a Moody’s Investors Service.
“Os factos sugerem que o ponto de maior angústia já passou”, refere Steven Andrew, um gestor de fundos da M&G Investments, firma que tem sob gestão GBP265 mil milhões ($345 mil milhões), desde há muito cauteloso sobre Portugal, mas que se tornou num comprador entusiástico no início deste ano.
Contudo, Portugal continua um dos elos mais fracos da Europa. Apenas a agência de rating DBRS Ltd. coloca a dívida de Portugal em classe de investimento. Sem pelo menos um rating de nível de investimento, Portugal perderia acesso ao programa de compra de ativos do Banco Central Europeu. A Moody’s e duas outras grandes agências colocam as obrigações de Portugal em terreno especulativo, devido à elevada dívida pública e à fragilidade do setor bancário.
Apesar das barreiras a uma recuperação económica mais robusta, empresários como o designer de calçado Luís Onofre dizem que estão a assistir a um renascimento do otimismo em Portugal. Os anos do programa de resgate foram um “período negro”, refere Onofre, mas as “nuvens dissiparam-se”.
Os turistas invadiram Portugal, receosos dos ataques terroristas em França, Turquia e Egito. O turismo representa agora 6,4% do PIB, o mais elevado de que há registo e bastante acima dos 4,6% alcançados em 2011, de acordo com o World Travel & Tourism Council.
Este cenário deu a Luís Onofre, de 46 anos, a confiança para abrir uma loja em nome próprio no Porto, cidade famosa pelo vinho generoso. A loja na principal artéria comercial de moda de luxo de Lisboa, a avenida da Liberdade, onde vende sapatos para homem e mulher confecionados em duas fábricas em Portugal, está a ser bem-sucedida.
Portugal não é o único país a beneficiar da corrida às obrigações periféricas devido ao sentido de que a Europa está a deixar para trás anos de turbulência política e económica. Espanha, que se situa entre os países que mais crescem na Europa, tornou-se um símbolo da recuperação da Zona Euro.
Portugal não se encontrava particularmente otimista nos últimos anos. Uma bolha na dívida e uma despesa pública descontrolada — o deficit orçamental foi de quase 10% do PIB em 2010 — forçou o país a pedir um resgate no valor de EUR78 mil milhões em 2011. Portugal ainda está a recuperar da recessão que se seguiu.
“Demorou uma década, quase uma década, para corrigir os erros dos dez anos anteriores”, disse o comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas.
Agora, o deficit orçamental está nos 2% do PIB, enquanto a confiança dos consumidores e das empresas está em níveis de 2001. O Partido Socialista, com o apoio de outras forças mais à esquerda, incluindo o Partido Comunista — uma aliança tão improvável que foi chamada de “geringonça” quando foi formada em 2015 –, tem governado bem, referem executivos e investidores.
Os preços do imobiliário em cidades como Lisboa e Porto estão a subir. Esta semana, Portugal pediu autorização à UE para reembolsar antecipadamente cerca de EUR10 mil milhões ao Fundo Monetário Internacional.
Contudo, as dúvidas permanecem sobre se o país fez alterações estruturais suficientes para assegurar uma recuperação sólida e duradoura — uma indicação de que as economias periféricas da Europa continuam vulneráveis.
O rácio da dívida face ao PIB continua um dos mais elevados da UE depois da Grécia e Itália e deverá continuar acima dos 125% nos próximos anos. E, ao contrário da vizinha Espanha, Portugal não fez uma limpeza profunda do sistema bancário. O crédito malparado representa 17% do total, o que está a travar o fluxo de novos empréstimos, o que, por sua vez, fez abrandar o investimento.
“Vemos todo este otimismo à volta”, refere Nuno Vilaça, sócio na firma de investimento Raven Capital em Lisboa. Contudo, acrescenta, “existe um longo caminho a percorrer nos setores financeiro e industrial”.
Como em outras áreas da periferia, esta fragilidade deixará Portugal vulnerável quando o BCE retirar a política ultra-acomodatícia, o que os investidores antecipam para o próximo ano. Os títulos portugueses poderão ficar sob maior pressão de o banco abrandar as compras mensais, refere Patrick O’Donnell, gestor de investimento sénior da Aberdeen Asset Managementque gere mais de GBP308 mil milhões ($395 mil milhões).
“Os mercados mais pequenos são muito mais dependentes” do BCE, acrescenta.
– Por Jeannette Neumann (jeannette.neumann@wsj.com), Jon Sindreu (jon.sindreu@wsj.com)